Principais avanços em hematologia: insights em Onco-Hemato para a tomada de decisão clínica.
American Society of Hematology Annual Meeting – Destaques do Segundo Dia
Entre 6 e 9 de dezembro de 2025, acontece a 67th ASH Annual Meeting, que reúne os principais especialistas da hematologia mundial e apresenta as evidências científicas mais recentes e relevantes da área. A seguir, reunimos alguns dos principais destaques do segundo dia do congresso.
Preliminary experience from the ODYSSEY trial: Efficacy and safety of momelotinib in combination with luspatercept in patients with transfusion- dependent myelofibrosis
Dr. Prithviraj Bose do MD Andreson apresentou a análise inicial do estudo de fase II ODYSSEY, que investiga a combinação de momelotinibe com luspatercepte em pacientes com mielofibrose e anemia dependente de transfusão. Ambos os fármacos têm mecanismos complementares para estimular diferentes etapas da eritropoiese, com o objetivo de reduzir a necessidade de transfusões.
O estudo pretende incluir cerca de 56 pacientes, distribuídos em duas coortes conforme a exposição prévia a inibidores de JAK. O regime terapêutico utiliza momelotinibe 200 mg ao dia e luspatercepte 1 mg/kg a cada três semanas. Devido ao ritmo acelerado de recrutamento, foi possível realizar uma análise antecipada, com seguimento mediano de 43 dias, ainda sem pacientes tendo alcançado a semana 24.
Até o momento, 27 pacientes foram incluídos. Eles apresentavam hemoglobina basal mediana de 8 g/dL e, antes do estudo, recebiam em média 2,2 unidades de sangue por mês. Entre os 11 pacientes com dados transfusionais antes e depois do início do tratamento, 64% tiveram estabilidade ou redução da necessidade transfusional. Quatorze pacientes passaram por ao menos uma avaliação esplênica pós-baseline, em geral na semana 3; 43% deles mostraram redução do tamanho do baço.
A hemoglobina média aumentou rapidamente até a semana 3 e depois se estabilizou, enquanto as plaquetas permaneceram estáveis. O perfil de segurança foi compatível com o já conhecido para cada agente, sem eventos graves relacionados ao tratamento no momento do corte.
Esses dados iniciais apontam que a combinação é bem tolerada e já demonstra sinais precoces de benefício, tanto na anemia quanto na redução esplênica. As próximas análises aprofundarão esses achados e podem consolidar o momelotinibe como o “backbone” ideal de JAK inhibitor para combinações em pacientes com anemia. A análise primária está prevista para 2026.
Belantamab mafodotin (belamaf) ocular events are manageable and reversible with dose modifications guided by standard assessments
Na sessão de pôsteres, foi apresentado uma análise detalhada sobre os eventos oculares associados ao belantamabe mafodotina (belamaf) nos estudos DREAMM-7 e DREAMM-8, destacando que esses eventos são manejáveis e reversíveis com ajustes de dose baseados em avaliações oftalmológicas padronizadas. Nos dois estudos, o ADC direcionado ao BCMA, combinado a bortezomibe + dexametasona (DREAMM-7) ou a pomalidomida + dexametasona (DREAMM-8), demonstrou benefícios clinicamente significativos em SLP e, no DREAMM-7, também em SG, em pacientes com mieloma múltiplo recidivado/refratário.
Como ocorre com outros ADCs, eventos oculares foram frequentes nas combinações contendo belamaf, mas foram controlados por meio de um protocolo rigoroso de monitoramento. Antes de cada dose, um oftalmologista realizava exame com lâmpada de fenda e avaliação de acuidade visual (BCVA) com a tabela de Snellen. Esses parâmetros, achados de exame corneano e alterações unilaterais ou bilaterais de BCVA, orientavam condutas como atraso de dose, redução ou extensão do intervalo entre aplicações. Nos estudos, KVA grau ≥2 levou ao atraso da dose, enquanto grau 3 demandou redução (DREAMM-7) ou espaçamento da dose (DREAMM-8).
O critério era sensível: eventos grau 2 podiam incluir depósitos microcísticos na córnea sem impacto clínico significativo na visão ou com alterações discretas de BCVA (2–3 linhas na Snellen, equivalente a mudança de 20/20 para 20/30 ou 20/40). Assim, um achado corneano podia gerar modificação de dose mesmo sem sintomas relatados pelo paciente. Essa sensibilidade se refletiu na incidência mais alta de OEFs grau ≥2 (86% e 87% em DREAMM-7 e DREAMM-8), que surgiram precocemente (mediana de 6 e 5 semanas), em comparação com alterações de visão, menos frequentes.
Alterações bilaterais de BCVA para 20/50 ou pior, aquelas com maior impacto funcional, ocorreram em 34% dos pacientes, sendo menos comuns que mudanças unilaterais (69% e 72%). A maioria dos eventos oculares melhorou ou se resolveu até o corte dos dados. A recuperação da visão foi relativamente rápida: tempo mediano de melhora da BCVA de 3–4 semanas e resolução completa em 7–8 semanas, precedendo a recuperação dos achados corneanos grau ≥2 (mediana de 12 semanas). Assim, alterações bilaterais da visão foram menos frequentes, mais transitórias e representaram cerca de 8% do tempo total de exposição ao tratamento. Já os OEFs grau ≥2, que guiavam as modificações de dose, apresentaram padrão consistente de resolução, mesmo quando recorrentes. Cerca de 60% dos pacientes tiveram múltiplos episódios, com tempo de resolução das primeiras cinco ocorrências variando entre 11 e 16 semanas.
Em conclusão, os dados reforçam que os eventos oculares associados ao belamaf são manejáveis e reversíveis, sustentados pela capacidade regenerativa do epitélio corneano. A maior incidência de OEFs grau ≥2 decorreu da sensibilidade das avaliações, enquanto as alterações bilaterais de BCVA, que refletem melhor a experiência visual do paciente, foram menos frequentes e amplamente reversíveis. A previsibilidade na resolução dos eventos apoia a estratégia de modificação de dose adotada nos estudos DREAMM-7 e DREAMM-8.
Life-years and quality-adjusted life-years with belantamab mafodotin, bortezomib, and dexamethasone vs alternative regimens in patients with Relapsed/Refractory multiple myeloma who received ≥1 prior line of therapy
Um outro trabalho discutido na sessão de pôsteres apresentou uma análise que comparou os anos de vida (LYs) e os anos de vida ajustados por qualidade (QALYs) associados ao regime belamaf + bortezomibe + dexametasona (BVD) em relação a diferentes esquemas utilizados no mieloma múltiplo recidivado/refratário após pelo menos uma linha prévia de tratamento. Estudos anteriores, como o DREAMM-7, já haviam demonstrado que o BVD proporciona ganho significativo em sobrevida livre de progressão (SLP), além de um benefício de sobrevida global (SG) precoce e sustentado quando comparado ao regime daratumumabe, bortezomibe, and dexametasona (DVd). No entanto, como o mieloma é uma doença crônica e recidivante, o acompanhamento clínico de um ensaio não capta totalmente o impacto do tratamento ao longo da vida do paciente, incluindo ganhos em qualidade de vida.
O objetivo desta análise foi estimar, em um horizonte vitalício, os anos de vida totais e ajustados por qualidade proporcionados pelo BVD versus sete comparadores amplamente utilizados em pacientes recidivados/refratários após uma ou mais linhas de terapia. Para isso, desenvolveu-se um modelo de sobrevida particionado, composto por quatro estados mutuamente exclusivos: (1) livre de progressão em tratamento; (2) livre de progressão fora de tratamento; (3) doença progressiva; e (4) morte. A população simulada refletiu o perfil dos pacientes do DREAMM-7, com idade média de 64 anos.
Os dados de eficácia de BVD e DVd foram extraídos diretamente do DREAMM- 7. Para os demais comparadores, os efeitos relativos foram obtidos por meta-análise em rede. As curvas de SLP e SG para BVD e DVd foram ajustadas por distribuições exponenciais e log-logísticas, respectivamente, e hazard ratios foram aplicados para derivar os demais regimes. As utilidades associadas aos estados de saúde foram baseadas nos dados de qualidade de vida do DREAMM-7 (EQ-5D-3L), com ajustes conservadores para desutilidades relacionadas a eventos adversos. Penalidades específicas para toxicidade ocular grau ≥3 associada ao belamaf também foram incorporadas.
Os resultados mostraram que o BVD proporcionou os maiores ganhos em anos de vida e QALYs em comparação com todos os regimes avaliados. O acréscimo de QALYs foi mais expressivo na comparação com VD (4,9 QALYs) e menor, embora ainda favorável, frente aos esquemas DKd e IKd (1,6 QALYs). A maior parte desse benefício adicional ocorreu no estado livre de progressão, indicando que os anos extras proporcionados pelo BVD foram vividos em melhor condição clínica.
Com seguimento mediano de 39,4 meses no DREAMM-7, o BVD manteve benefício consistente de sobrevida global em relação ao DVd. As projeções de longo prazo indicaram probabilidades de sobrevida em 5 e 10 anos superiores às observadas com todas as terapias comparadoras. Em alguns casos, as taxas de sobrevida em 10 anos com BVD se aproximaram ou até superaram as taxas de 5 anos dos demais tratamentos, um sinal de benefício sustentado ao longo do tempo.
Em síntese, o BVD demonstrou oferecer mais anos de vida e mais anos ajustados por qualidade do que todos os comparadores avaliados, impulsionado especialmente pela prolongação de SLP e SG e por melhorias na qualidade de vida. Esses achados reforçam o potencial do BVD em estender a sobrevida e fornecer benefícios clínicos duradouros no mieloma múltiplo recidivado/refratário após pelo menos uma linha prévia de tratamento, apoiando seu papel como opção terapêutica.
Health-related quality of life with belantamab mafodotin in patients with relapsed or refractory multiple myeloma (RRMM): An exploratory analysis of overall quality of life in dreamm-7
Na sessão de pôsteres, foi apresentado uma análise exploratória sobre qualidade de vida relacionada à saúde (HRQOL) em pacientes com mieloma múltiplo recidivado/refratário tratados com belantamabe mafodotina (belamaf) no estudo DREAMM-7. Nesse ensaio, o regime belamaf + bortezomibe + dexametasona (BVD) demonstrou benefícios estatisticamente significativos em sobrevida livre de progressão e sobrevida global. Considerando os conhecidos efeitos oculares associados ao fármaco, esta análise buscou contextualizar o impacto das alterações visuais clinicamente relevantes sobre a qualidade de vida, bem como o equilíbrio entre eventuais prejuízos visuais e os benefícios clínicos do tratamento.
A análise pós-hoc concentrou-se em três domínios particularmente sensíveis à piora da visão. Alterações clinicamente significativas da acuidade visual corrigida (BCVA) foram avaliadas em pacientes do braço BVD com visão normal no basal, classificando-se os indivíduos conforme tivessem ou não apresentado piora bilateral da BCVA para 20/50 ou pior durante o estudo. Para mensurar qualidade de vida, utilizaram- se os questionários EORTC QLQ-C30 e QLQ-MY20, que avaliam global health status/qualidade de vida, função física, atividades diárias e sintomas específicos do mieloma.
Os resultados mostraram que o estado global de saúde/qualidade de vida permaneceu estável ao longo do tempo entre os pacientes com piora bilateral da visão para 20/50 ou pior, com escores semelhantes aos observados no braço DVd. De forma consistente, os pacientes não relataram mudanças clinicamente significativas em seu estado global de saúde atribuíveis a eventos adversos.
A avaliação de atividades diárias também se manteve estável, independentemente da ocorrência de piora visual bilateral, com resultados comparáveis aos de pacientes tratados com DVd. Observou-se inclusive tendência de melhora desse parâmetro após a resolução dos eventos oculares. Da mesma forma, não houve impacto significativo na função física, reforçando que a perda visual transitória não se traduziu em deterioração da qualidade de vida nesses domínios.
O tratamento com BVD foi associado a um atraso clinicamente significativo na piora de sintomas específicos do mieloma, com tempo mediano para deterioração aproximadamente 2,6 vezes maior do que com DVd. Além disso, houve atraso na piora sustentada da capacidade dos pacientes de realizar atividades diárias.
De modo geral, a qualidade de vida relacionada à saúde não foi negativamente afetada pelos eventos oculares, mesmo entre aqueles que apresentaram piora bilateral da visão. Isso provavelmente se deve à natureza transitória desses eventos e ao manejo eficaz por meio de modificações de dose, sem impacto sobre a eficácia do tratamento. Benefícios semelhantes foram observados na manutenção da função física e na postergação de sintomas da doença.
Em síntese, a análise oferece uma visão ampla da qualidade de vida no tratamento com BVD, demonstrando que os pacientes mantêm sua função e bem-estar geral apesar dos efeitos oculares, enquanto usufruem de benefícios clínicos importantes. Esses achados reforçam o BVD como uma opção terapêutica promissora para o mieloma múltiplo recidivado/refratário.