Principais avanços em hematologia: insights em Onco-Hemato para a tomada de decisão clínica.
American Society of Hematology Annual Meeting – Destaques do Primeiro Dia
Entre 6 e 9 de dezembro de 2025, acontece a 67th ASH Annual Meeting, que reúne os principais especialistas da hematologia mundial e apresenta as evidências científicas mais recentes e relevantes da área. A seguir, reunimos alguns dos principais destaques do primeiro dia do congresso.
Long-term responders from the Phase 3 dreamm-7 study of belantamab mafodotin plus bortezomib and dexamethasone vs daratumumab plus bortezomib and dexamethasone in Relapsed/Refractory multiple myeloma
Foi apresentado durante a sessão de pôsteres do congresso uma análise pós hoc do estudo fase 3 DREAMM-7, conduzida para caracterizar pacientes com mieloma múltiplo recidivado/refratário (RRMM) que alcançaram benefício clínico sustentado com belantamabe mafodotina + bortezomibe + dexametasona (BVd), definidos como respondedores de longo prazo (RLPs; SLP ≥36 meses). Todos os participantes incluídos tinham mais de 36 meses de acompanhamento.
Entre os 494 pacientes randomizados (BVd n=243; DVd n=251), 125 foram classificados como RLPs. A proporção de RLPs foi maior no braço BVd (32%) do que no DVd (19%). As características basais foram amplamente equilibradas, embora RLPs tendessem a ter menos linhas de tratamento prévias e todos estivessem nos estágios R-ISS I/II; não-RLPs apresentaram maior frequência de doença extramedular (9% vs 2%) e citogenética de alto risco (39% vs 24%).
Os RLPs tratados com BVd demonstraram respostas mais profundas e sustentadas quando comparados aos tratados com DVd. As taxas de resposta profunda foram superiores com BVd (72% vs 57%), assim como a negatividade de MRD (75% vs 70% para CR ou melhor; 73% vs 58% para PR ou melhor). Entre os não-RLPs, BVd também resultou em maiores taxas de resposta profunda e MRD negativa.
Nos RLPs tratados com BVd, a mediana de duração da resposta e a mediana de SLP não foram alcançadas, enquanto no braço DVd corresponderam a 47,7 meses e 48,5 meses, respectivamente. Essas respostas profundas e duradouras se traduziram em benefício consistente de SLP. O perfil de segurança de BVd entre os RLPs permaneceu alinhado às observações prévias e ao conjunto total da população do estudo.
Concluiu-se que RLPs tratados com BVd alcançam respostas mais profundas, mais duradouras e com maior prolongamento de SLP em comparação ao DVd. Além disso, esse trablho destacou que menor número de linhas prévias de tratamento pode aumentar a probabilidade de benefício sustentado, sugerindo potencial vantagem clínica do uso mais precoce de BVd.
Dual transfusion independence and spleen volume reduction is associated with overall survival in patients with myelofibrosis treated with momelotinib: Post hoc analyses of SIMPLIFY-1 and MOMENTUM
Foi apresentada uma análise pós-hoc dos estudos fase 3 SIMPLIFY-1 e MOMENTUM para avaliar o impacto da combinação entre redução do volume esplênico (RVE) e independência transfusional (IT), definida como resposta dupla, na sobrevida global (SG) de pacientes com mielofibrose (MF), com ou sem exposição prévia a inibidores de JAK (iJAK). Também foram examinadas associações entre IT, diferentes limiares de RVE e SG.
A MF é caracterizada por esplenomegalia, anemia e sintomas constitucionais, e embora RVE ≥35% seja o parâmetro de referência para resposta esplênica, sua relação direta com sobrevida permanece incerta. Uma análise prévia do SIMPLIFY-1 já havia demonstrado associação entre IT na semana 24 e maior SG, independentemente da obtenção de RVE35.
A nova análise pós-hoc avaliou pacientes tratados com momelotinibe nos estudos SIMPLIFY-1 e MOMENTUM, comparando a SG entre respondedores duplos e não-respondedores segundo diferentes limiares de SVR (≥35%, ≥25%, ≥15% e ≥10%). A SG foi estimada por Kaplan-Meier e modelos de Cox. Devido ao crossover, apenas o braço de momelotinibe permitiu avaliação prolongada, complementada por dados de acesso expandido.
No SIMPLIFY-1, a maioria dos pacientes que alcançaram resposta esplênica também atingiram IT na semana 24, e respondedores duplos sem exposição prévia a iJAK apresentaram maior SG em todos os limiares de SVR, reforçando achados prévios em pacientes anêmicos. No MOMENTUM, o número de respondedores duplos foi menor, refletindo uma população mais anêmica e previamente tratada com iJAK; ainda assim, a associação entre resposta dupla na semana 24 e melhor SG foi consistente em todos os limiares.
Benefícios de SG foram observados mesmo com reduções modestas do volume esplênico (10%–15%), com clara separação das curvas de sobrevida. Os resultados reforçam a relevância de alcançar simultaneamente IT e controle da esplenomegalia para melhorar a SG em pacientes com MF tratados com momelotinibe. Também destacou a importância de priorizar, na prática clínica, estratégias que contemplem ambos os desfechos e de conduzir estudos adicionais para validação em populações mais amplas e em contextos de mundo real.
Sessão Especial ASH – Diretrizes de Prática Clínica em Mielofibrose
A sessão apresentou, de forma prática, as principais recomendações das novas diretrizes da ASH em mielofibrose (MF), voltadas a pacientes com MF pré-fibrótica, primária e pós-ET/pós-PV. O painel multidisciplinar utilizou a metodologia GRADE e estruturou 10 perguntas PICO, resultando em recomendações sempre condicionais, baseadas em evidência de baixa ou muito baixa certeza. Brady Stein iniciou revisitando a história da doença, da descrição de Heuck à era molecular e ao desenvolvimento dos inibidores de JAK, reforçando que as diretrizes buscam padronizar diagnóstico e condutas, incluindo uso de inibidores de JAK, manejo da anemia, transplante e terapias de suporte.
Na discussão sobre inibidores de JAK, Douglas Tremblay enfatizou que, embora o DIPSS permaneça ferramenta central de estratificação, a decisão terapêutica deve priorizar sintomas e esplenomegalia. Em pacientes de maior risco, assintomáticos e sem esplenomegalia sintomática, o painel sugere não iniciar inibidores de JAK, favorecendo observação com avaliação estruturada de sintomas. Já em pacientes de baixo risco, mas sintomáticos e com esplenomegalia, recomenda-se o uso de inibidores de JAK, considerando o benefício clínico consistente. A mensagem central reforçada foi “tratar o paciente, não apenas o escore”.
Na sequência, Anthony Hunter abordou o manejo da anemia, destacando sua alta prevalência, impacto na qualidade de vida e relevância prognóstica. Para pacientes virgens de inibidores de JAK cujo principal problema é a anemia, o painel considerou aceitáveis tanto o uso de inibidores de JAK com perfil mais favorável (momelotinibe, pacritinibe) quanto terapias voltadas à anemia, como ESA ou danazol, devendo a escolha considerar gravidade da anemia, dependência transfusional, disponibilidade de medicamentos e presença de citopenias adicionais. Já para anemia que surge durante o uso de inibidores de JAK, foram definidos dois cenários: quando há perda de resposta de baço, recorrência de sintomas e dependência transfusional, sugere-se troca para momelotinibe ou pacritinibe, quando o paciente mantém excelente resposta clínica e apresenta apenas a queda esperada de hemoglobina no início do tratamento, recomenda-se manter inibidores de JAK e otimizar o manejo da anemia com terapias de suporte. Essas conclusões foram sustentadas principalmente pelo estudo SIMPLIFY-2.
A discussão sobre transplante destacou que, em pacientes DIPSS intermediário-2/alto, análises retrospectivas e modelos de Markov mostram que o transplante melhora a sobrevida a longo prazo, apesar da maior mortalidade precoce. Assim, para pacientes de alto risco em uso de inibidores de JAK, o painel recomenda encaminhamento precoce para consulta de transplante, priorizando especialmente aqueles com alterações moleculares ou citogenéticas de alto risco e considerando sempre preferências, valores e equidade de acesso.
Por fim, a sessão abordou o uso de aspirina, reconhecido em PV e ET, mas pouco estudado em MF. Sem ensaios específicos disponíveis, a recomendação baseou-se em evidência indireta de PV, ET e registros de MF. Diante do risco trombótico variável e do risco de sangramento, o painel sugere aspirina em baixa dose para pacientes com mielofibrose JAK2 V617F positiva, desde que não haja contraindicações. Para os demais pacientes, recomenda-se decisão compartilhada, avaliando subtipo da doença, fatores de risco trombótico e fatores de risco de sangramento.
Encerrando a sessão, reforçou-se que a mielofibrose é uma doença rara e heterogênea, que exige individualização do cuidado e decisões compartilhadas. A multiplicidade de opções terapêuticas permite maior personalização, mas também evidencia lacunas importantes, sobretudo no manejo da anemia e no papel dos antiplaquetários, que deverão guiar futuras pesquisas.