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American Society of Hematology Annual Meeting – Destaques do Terceiro Dia
Entre 6 e 9 de dezembro de 2025, acontece a 67th ASH Annual Meeting, que reúne os principais especialistas da hematologia mundial e apresenta as evidências científicas mais recentes e relevantes da área. A seguir, reunimos alguns dos principais destaques do terceiro dia do congresso.
Functional high-risk Relapsed/Refractory multiple myeloma (RRMM) outcomes with belantamab mafodotin (belamaf): Dreamm-7 and dreamm-8 subgroup analysis
No terceiro dia do ASH 2025, foi discutido uma análise dos desfechos das combinações baseadas em belantamabe mafodotina (belamaf) avaliadas nos estudos DREAMM-7 e DREAMM-8 em pacientes com mieloma múltiplo recidivado ou refratário que apresentavam doença funcional de alto risco, definida como progressão dentro de 18 meses após a terapia inicial ou após o transplante. Trata-se de um subgrupo clinicamente desafiador, já que cerca de metade dos pacientes com mieloma múltiplo recaem dentro de 12 a 18 meses após o tratamento de primeira linha, destacando a necessidade de opções terapêuticas mais eficazes.
Em ambos os estudos, as características basais foram bem equilibradas entre os braços, assegurando comparabilidade adequada. A duração mediana de seguimento variou conforme o contexto: 28,2 meses entre os pacientes com apenas uma linha prévia no DREAMM-7, 39,4 meses no subgrupo de alto risco funcional do mesmo estudo e 21,8 meses no DREAMM-8.
No DREAMM-7, entre pacientes tratados após uma linha prévia, a SLP mediana foi de 36,6 meses para bela-VD versus 19,1 meses para dara-VD. No subgrupo de alto risco funcional, o benefício foi mantido, com SLP de 28,4 meses para bela-VD contra 13,4 meses para dara-VD. No DREAMM-8, a SLP mediana não foi alcançada com bela- PD após uma linha prévia, enquanto PVd apresentou 18,5 meses; entre os pacientes de alto risco funcional, a SLP novamente não foi alcançada com bela-PD, em contraste com 14,8 meses no PVd. Os hazard ratios nos dois estudos favoreceram consistentemente as combinações com belamaf, independentemente do risco funcional.
As terapias contendo belamaf também apresentaram taxas de resposta completa (RC) ou melhor substancialmente superiores, cerca de 50% acima das registradas nos regimes comparadores, em todos os subgrupos avaliados. A negatividade de MRD reforçou esse padrão: no DREAMM-7, 71% alcançaram MRD negativa com bela-VD versus 60% com dara-VD após uma linha prévia, e entre pacientes de alto risco funcional, 64% versus 44%. Resultados comparáveis foram observados no DREAMM-8: 71% versus 22% na população com uma linha prévia e 71% versus 29% no alto risco funcional.
Além disso, a duração da resposta foi mais prolongada com esquemas contendo belamaf após uma linha prévia, refletindo maior profundidade e durabilidade das respostas. A análise também revelou benefício consistente em sobrevida global nos subgrupos de alto risco funcional: no DREAMM-7, 70% dos pacientes tratados com bela- VD estavam vivos no ponto de corte, comparados a 58% com dara-VD; no DREAMM- 8, 79% estavam vivos com bela-PD versus 77% com PVd.
O perfil de segurança das combinações com belamaf permaneceu compatível com o observado na população geral dos estudos e alinhado ao padrão de cuidado, sem novos sinais relevantes de toxicidade.
Concluindo, o trabalhou destacou que as combinações com belamaf demonstraram benefícios robustos, incluindo SLP prolongada, respostas mais profundas e sustentadas e maiores taxas de MRD negativa, quando comparadas aos regimes padrão, mesmo entre pacientes com doença funcional de alto risco. A consistência do perfil de segurança reforça a viabilidade do uso de belamaf tanto após uma linha prévia quanto em pacientes de maior risco biológico e clínico.
Survival outcomes in ruxolitinib-treated patients with myelofibrosis following crossover to momelotinib: Application of the response to ruxolitinib at 6 months (RR6) prognostic model to SIMPLIFY-1
Na sessão de pôsteres do terceiro dia do ASH 2025, foi apresentado uma análise post-hoc do estudo SIMPLIFY-1 aplicando o escore prognóstico RR6 para avaliar os desfechos de sobrevida em pacientes com mielofibrose que iniciaram tratamento com ruxolitinibe e, após seis meses, migraram para momelotinibe.
O modelo RR6 classifica os pacientes em baixo, intermediário ou alto risco com base na resposta ao ruxolitinibe após seis meses de terapia, permitindo identificar precocemente aqueles com maior probabilidade de desfechos desfavoráveis. O SIMPLIFY-1, um estudo de fase III com pacientes naive a inibidores de JAK, randomizou participantes para momelotinibe ou ruxolitinibe durante seis meses, após os quais todos puderam receber momelotinibe em regime aberto.
A análise comparou os pacientes inicialmente tratados com ruxolitinibe e que migraram para momelotinibe com a população do estudo RUXOREL-MF, utilizando comparações indiretas não ajustadas e análises ajustadas por pareamento (MAIC).
Na análise não ajustada, os pacientes do SIMPLIFY-1 apresentaram mediana de sobrevida global superior em todas as categorias RR6 quando comparados ao RUXOREL-MF. Os hazard ratios dos grupos de risco intermediário e alto foram mais favoráveis no SIMPLIFY-1.
Após ajuste, os resultados se mantiveram consistentes: a mediana de SG no SIMPLIFY-1 foi de 86,7 meses, comparada a 53,4 meses no RUXOREL-MF. Os maiores benefícios foram observados nos grupos de risco intermediário e alto, que representaram cerca de 80% da população, reforçando que esses pacientes parecem se beneficiar mais claramente da transição para momelotinibe.
Entre os pacientes de baixo risco, a SG foi numericamente superior no RUXOREL-MF, mas o número reduzido de indivíduos nessa categoria limita conclusões firmes. Além disso, esses pacientes tenderam a tolerar melhor o ruxolitinibe, sugerindo que podem não ser o perfil ideal para troca precoce de terapia.
De modo geral, os achados indicam que a migração para momelotinibe após seis meses de ruxolitinibe pode melhorar desfechos de sobrevida em pacientes com resposta subótima classificados como risco intermediário ou alto pelo RR6, enquanto indivíduos de baixo risco podem permanecer adequadamente manejados com ruxolitinibe.
Como conclusão, foi recomendando considerar a troca de ruxolitinibe para momelotinibe após seis meses em pacientes RR6 intermediário ou alto, e destacou a necessidade de investigação adicional sobre os desfechos de sobrevida em pacientes de baixo risco e validação dos achados em coortes maiores.
Belantamab mafodotin (belamaf) in combination with bortezomib, lenalidomide, and dexamethasone (VRd) for patients (pts) with transplant-ineligible (TI) newly diagnosed multiple myeloma (NDMM): A focus on treatment efficacy and management/resolution of ocular events in the Phase 1 dreamm-9 study
Na sessão de pôsteres, o pesquisador apresentou resultados do estudo de fase 1 DREAMM-9, que avalia belantamabe mafodotina (belamaf) em combinação com bortezomibe, lenalidomida e dexametasona (BVRd) em pacientes com mieloma múltiplo recém-diagnosticado e inelegíveis ao transplante. O foco desta análise foi integrar eficácia, segurança e resolução dos eventos oculares associados ao tratamento, um aspecto relevante para terapias baseadas em belamaf.
Belamaf é um anticorpo–fármaco conjugado dirigido ao BCMA. Combinações contendo o agente já demonstraram benefícios de SLP e SG em doença recidivada/refratária (como em BVD e BeV-Pd), e encontram-se aprovadas em diversos países. No DREAMM-9, múltiplas doses (1–1,9 mg/kg) e esquemas de administração (Q3/4 semanas — “short”; Q6/8 semanas — “stretch”; e Q9/12 semanas) foram testados.
Ao todo, 108 pacientes foram incluídos entre dezembro de 2019 e março de 2024. A análise apresentada concentrou-se em três coortes com respostas mais profundas: 1,9 mg/kg short, 1,9 mg/kg stretch e 1,4 mg/kg stretch. O seguimento mediano variou de 32 a 38 meses.
As taxas de resposta global foram iguais ou superiores a 71% em todas as coortes, chegando a 100% em subgrupos selecionados. A negatividade de MRD entre pacientes com resposta completa foi mais frequente com a dose de 1,9 mg/kg. Todos os participantes apresentaram algum evento adverso, e o perfil de segurança foi consistente com estudos anteriores. A incidência de achados oftálmicos grau ≥2 e de piora bilateral da acuidade visual para 20/50 ou pior foi semelhante entre as coortes, com baixas taxas de descontinuação (6%).
Os eventos oculares foram manejados com atrasos de dose e extensão de intervalos, apresentando reversão quando o acompanhamento era adequado. Um esquema stretch de Q6/8 semanas esteve associado a maior probabilidade de resposta completa ou melhor, enquanto o esquema Q9/12 semanas reduziu a ocorrência de eventos oculares grau ≥2, mas também mostrou menor probabilidade de respostas profundas.
Em síntese, o regime BVRd com belamaf apresentou altas taxas de resposta e MRD negativa, especialmente com a dose de 1,9 mg/kg. Os eventos adversos, incluindo os oculares, foram manejáveis e reversíveis, com baixas taxas de interrupção permanente. As análises de exposição–resposta sugerem que doses mais altas podem aprofundar respostas, enquanto esquemas mais espaçados favorecem a tolerabilidade. Assim, uma estratégia iniciando com 1,9 mg/kg em Q6 semanas seguida de Q8 semanas pode alcançar respostas profundas, permitindo posterior extensão de intervalos para manejo de eventos oculares e otimização da tolerabilidade.
Esses resultados sustentam a seleção da dose e do cronograma de belamaf no tratamento de pacientes recém-diagnosticados inelegíveis ao transplante.